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sábado, 19 de maio de 2012

Pequi Norte Mineiro

            (a delícia do sertão!...) 




-Pequi Norte Mineiro?
-Êta/ trem gostoso!
-Êta/trem bão sô!

-Esse é o pequi saboroso!
-Esse é o ouro do Sertão!
Pois ele dá sustança/ à beça/
Ao veio sertanejo/matreiro//
E firma criança/robusta/
Neste agreste chão do Sertão!

-Êta/ trem gostoso!
-Êta/ trem bão sô!

-Há quem diga que ele é cheiroso/demais/
Outros/ que ele fede/ afirmam/à língua solta/
Mas/na verdade; cheirando ou fedendo/
Da catinga cheirosa desse fruto dourado/ do cerrado/
Ninguém /daqui/ deste rincão/ abre mão!

-Êta/ trem gostoso!
-Êta/ trem bão sô!

-Oia só aqui minha gente batuta:
- Pequi é um fruto /muito intrometido/
Pois se mete em qualquer lugar/
Se encontra /aos baldes/ nas festas da elite/
E num falta jamais/nas populares!

-Êta/ trem gostoso!
-Êta/ trem bão sô!

-De quando de sua safra/ abundante/
Já bem cedinho...logo ao alvorecer/
Nas panelas/ sobre o borralho/logo se começa
A cozinhá-los/ aos montes/ pra se roer à vontade!
Ai/ então/ o fuxico do cheiro do pequi/ ou de sua catinga/
Exala...por todo canto:- Telhados/ruas/praças/
Calçadas/etc & tal
Enfim...por onde quer que se ande/
Ou onde quer que se vá/ a qualquer hora do dia
Ou da noite/ em festança!

-Êta/ trem gostoso!
-Êta/ trem bão sô!

-Lá por volta das dez horas /grita alguém de algum lugar:
- Já tá pronto “o arroz com pequi e carne de sol”/ gente!
Uai/já?! Entreolhando-se/ boquiabertos/
Sussurram// contentes/os convivas/ já famintos!
Então/imediatamente/ veios e veias/homes e muiés/ adultos/
A moçada toda e toda a criançada/ da redondeza /se alvoroçaram
De alegria/ e de prato feito/ em mãos/começam a farta degustação/
Do saboroso “arroz de pequi com carne de sol”!

-Êta/ trem gostoso!
-Êta/ trem bão sô!

-Consumada a comilança/desvairada/
Entreolham-se/ com ar de grande satisfação/
E num coro uníssono/ aos berros/proclamam
Sua paixão pelo ouro do Sertão:
-Êta/ trem gostoso sô!
-Êta/ trem bão/ meu Deus!

RELMendes  23/11/2011


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Traquinices de criança



Quem num se lembra
dos pesim machucados
nus pedreguios
da estrada da infança...
saltando, saltando,
correndo, correndo
pra comprar
na venda de algum seu Zé:
Tijolim de doce de leite,
pedaço de “maria rosa”...
e pé de moleque pra vizinha,
Só pra ganhar
uns trocadim hein?!...

Quem num se lembra
que pulou muitos muros
na cidadezinha
donde morava
só pra furtar:
Galinha, franguim,
cachos de uva...
pitangas, laranjas...
e favos de mel
ducim hein?!...

Quem num se lembra
da coleguinha de escola
por quem se enamorou...
Enquanto, na lousa,
a fessorinha aborrecida,
escrevia, escrevia...
sem parar hein?!...

Quem não se lembra
de...por peraltices,
ter quebrado tantas vidraças
de janelas e de portas
das casas da vizinhança...
e depois...pôr-se a correr bastante
pra se esconder do pai ou da mãe,
morrendo de medo de levar
uma baita pisa deles hein?!...

Quem num se lembra
de ter chutado a canela
do namorado apaixonado
de nossa maninha querida
lá na quermesse alegre
da Praça da Matriz...
E, também, daquela
absurda gritaria-insuportável
que esculhambava
o som da banda
que tocava no coreto
do jardim hein?!...

Quem num se lembra
das famosas peladas
num campim de futebol,
donde se sujava a roupa,
se quebrava pernas e braços...
(o que quase sempre acontecia...)
E se dava doidas topadas
num inesperado torrão hein?!...

Quem num se lembra
de ter oiado
no lúdico buraquim
daquela fechadura indiscreta
que se encarregava
de arrancar, bem cedo,
a pretensa inocença
da gente hein?!...

Ah, num carece de mentir agora!...
Quem nunca quebrou vidraças,
Quem nunca machucou os pesim,
Quem nunca se enamorou da coleguinha,
Quem nunca ôio pelo buraquim
da indiscreta fechadura,
Quem nunca participou de peladas...
Quem nunca furtou
Sem precisar:
manga, cajá, galinha...
Não  viveu a infância,
Só passou pela vida...
Mas nunca experimentou a alegria
De ter sido, um dia, criança!...

Montes Claros (MG), 23-04-2012
RELMendes

terça-feira, 8 de maio de 2012

Dalira...


( uma sertaneja guerreira!)...
  
                      
Para se bordar um poema
Que descreve em versos
A imagem densa e terna de Dalira,
( uma valente sertaneja!)
É preciso ser curioso,
Estar atento,
E recolher...
Nas conversas dos filhos,
Parentes e amigos,
Retalhos de sua vida
Que sejam referências
Para se tentar esboçar
Um esfumaçado perfil literário
De tão guerreira mulher...

Secundária dentre as quatro filhas fêmeas de seu Nego,
Que era pai de mais sete filhos machos,
Dalira era uma cunhã de latente formosura,
Como tantas outras flores do agreste pacuiense.
Dalira era só um cadim de gente,
( no tamanho!),
Mas um mulherão de coragem
Na lida cotidiana
E na lealdade à família.

Ainda muito jovem
( pela belezura conhecida)
Seduziu o ciumento, Santos dos Santos,
Um faceiro rapaz sertanejo de São João do Pacuí,
Com quem conviveu até o final dos dias
Que a vida a ela concedeu,
Pois era mulher de um só homem,
Pra felicidade do sortudo marido!...

E para alegria do dito companheiro,
Seis filhos, Dalira lhe deu:
Zé, Beire, Kela, Lilo, Deo e Daniel,
Sem contar um tantão de netos
E o Marlon Gabriel,
 Bisneto que não conheceu.

Como Cora Coralina
Que quebrou pedras e plantou flores,
Se há gratidão em algum coração,                                
Também há quem ainda se lembra
De que Dalira quebrou coco de macaúba,
Plantou flores em torno da casa
E no quintal hortaliças...                                                                          

Versos...
Ela não os escreveu no caderno,
Mas os anotou e os bordou
Na memória e nas lembranças
Daqueles que a conheceram.

Criou os filhos dela,
E os dos outros também!
Partilhou sua casa,
( acolhendo nela. parentes e amigos),
Costurou!... Costurou a vida inteira!
( Pra poder alimentar a prole dela...ora!)                                                                         
Eis ai a saga de uma mulher
( valente e guerreira!)
Que conheceu a tristeza,
A felicidade e a alegria
E depois de muito lutar,
Adormeceu profundamente,
Deixando-nos muitos legados
De generosidade e sabedoria,
E uma saudade sem fim!...

Montes Claros(MG), 24-04-2012
RELMendes