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domingo, 4 de outubro de 2015

O velho o sonho e a Serra

(lembranças são janelas abertas ao passado!... )

Quando vez por outra
A brincar o sol se esconde
Nas embaçadas tardes de outono,
O velho aliviado se escancha
Em uma desgastada espreguiçadeira   
Pra se refrescar na sossegada varanda...
E se balança e cochila
E se balança sem parar
Por horas a fio.

-O olhar dele se perde no tempo...
A degustar lembranças alvoroçadas...
Em sua excelente memória.
Ressabiado...
O velho não as revela a ninguém
Por nada deste mundo
Só as sussurra consigo mesmo
Abismado:

-Ah! Lembranças lembranças
Cada qual mais saborosa que a outra.
Mas enfim, será pra onde elas me levam?
Pois sempre me arrastam ao pretérito
Após cochilos e mais cochilos.
Nas asas delas alço vôo
E lá de cima...
Vislumbro serras montes
E belas campinas...

Então, um sussurro angelical...
Ao velho responde:

-Ora, meu velho!
Elas seguem...lá no passado,
As tuas jovens pegadas
E certamente...sem hesitar,  
Levar-te-ão determinadas
Ao topo da exuberante
“Serra da Piedade”
-onde repousaste
tranquilamente a cabeça
No acolhedor colo materno
Da “Padroeira de Minas”
-Onde contemplaste
Ao amanhecer
Logo após a oração das matinas...
O avançar ligeiro da sombra da Serra,
Que altiva se derramava
Sobre a Belo Horizonte
A linda capital das Minas!

-Então o velho saudoso balbucia

-Oh! Quão formosa és tú,
Ó amada Serra!
Serra...onde vivi a doce saga
De repensar...mais uma vez ainda,
O meu fantasioso sonho juvenil  
Em fazer-me um recatado mongezinho
Que nem se quer seria percebido
Aos olhos malvados desse mundo.
Entretanto...
Chutei o balde
Chutei a bola na trave
E tomei outro rumo...ora!

Derepente...
Uma voz estridente ecoa
Lá da cozinha...
E trinca o encantamento
Do sublime devaneio:

-Véio! Ô veio!
-Vem logo tomá o café!

Então aborrecidíssimo...
Resmunga o ancião sonhador:

Ara! Não quero ser perturbado agora!
Espera só mais um pouquinho!...
Só levantar-me-ei dessa espreguiçadeira  
Depois de degustar...uma a uma,
Todas as lembranças
De minha saudosa juventude
Que o tempo levou pra sempre
E não voltará jamais,
Nem que a vaca tussa!

Montes Claros, 26-04-2012
RELMendes 

sábado, 26 de setembro de 2015

O percurso da vida...

    (Sob o olhar de um homem de TEATRO)
-Lá com seus botões
O homem de TEATRO
Rumina devaneios:

-Ó meu menestrezinho em chegada
Se concluída a tua gestação demorada
A natureza a ti te infrinja a abandonar
O aconchego quente do útero materno
E se isto a ti em nada te apraza...
Então eu te proponho
Veementemente
Que ainda no proscênio desta vida
Protestes gritando
E protestes aos berros!...

-Entretanto...
Se perceberes...logo que do parto
Nessa terra te derrames estrebuchando,
Que neste mundo agitado
Não há outra saída
Senão viver
E viver artisticamente
Então prova tua existência...gritando,
E gritando aos berros!...

-Mas se desde a tua concepção
Tão desejada
És tu tão ansiosamente esperado
Então vem depressa!... Vem logo!
Porquanto de curiosidades
Perco-me em ansiedades

-Mas se vieres agorinha mesmo
Se me mostrares o teu rosto
Ainda oculto,
Contar-te-ei um segredo
Ao pé do ouvido
Então olha só! O meu delírio
Cá tão somente entre nós
Outro não é senão o de ver-te
Atuar no dia a dia
Pelos incontáveis tablados desta vida
Verdinha verdinha
Fazendo reflorescerem
Em mim,
Tantas emoções escondidas

-Portanto...coragem!
Vem depressa! Vem a pés em chão!
Pois aqui um mundarel de gente
Espera-te...ansiosamente
E tem pressa á beça...ora!  

-Lá com seus botões,
O homem de TEATRO
Pensou ter ouvido
Sussurros abusados:

-Olha só aqui...
Seu teatrólogo impertinente!
Presta bem atenção!...
Se versátil será o meu ofício
De futuro menestrel,
Saiba que tanto mais ainda
O será o semblante
Inconstante e volúvel
Do meu rosto a chegar
Entretanto...se mesmo assim
Te dá gosto conhecê-lo...de imediato,
Então escolhas ai
Na ladainha...abaixo,
Aquele que mais do teu agrado seja:

-Um rosto dolorido...
-Um rosto tristonho,
-Um rosto espantado...
-Um rosto assustado,
-Um rosto empalamado...
-Um rosto faminto,
-Um rosto multimascarado
Como é devido
A um verdadeiro artista.
Ah! E quiçá quem sabe então
Este rosto ai tão versátil
Não seja aquele do teu maior agrado?!

-Lá com seus botões,
O homem de TEATRO
Sem economias,
Esbraveja intrépido: 

-Ah, seu desaforado menestreuzinho!
Presta atenção aqui, digo-te eu!
Se a ti eu te estimulei insistentemente
A perder a sagrada invisibilidade,
Foi tão somente porque tenho pressa
Em introduzir-te no profundo segredo
Da sublime arte de interpretar.
Portanto larga de ser besta
E apressa-te a interpretar
Com talento á beça,
Todos os personagens
Que te serão ofertados...
Pois se o tempo e a vida
Ligeiros se esvaem pra todos,
Eu ainda vivo pretendo ver-te
Interpretar e alçar voo ao sucesso
Antes que para mim
Se apaguem os holofotes,
Se cerrem as cortinas
E, de súbito, se me calem os aplausos
Que a mim tanto me aprazem... ora!      


Montes Claros (MG), -24/07/2012

RELMendes

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Proposta

-Se eu puder...
Cantar a ternura generosa
Dos amantes a se acariciarem
Sem pundonores algum,
-Se eu puder...
Proclamar a alegria displicente
Das crianças a brincar
Despreocupadamente,
-Se eu puder...
Constatar...a cada amanhecer,
A serenidade jubilosa
Dos olhos dos idosos a despertar,
-Se eu puder...
Ouvir o dialogar sussurrado
Das estrelas a brilhar
Apesar do clarão do luar,
-Se eu puder...
Vislumbrar o luar indiscreto
A clarear o acontecer invisível
Do desabrochar das flores etc etc...

-Então verdadeiramente
Não tenham duvidas
Que eu tecerei...pela vida inteira,
Versinhos singelos
Poeminhos graciosos
Poesias inebriantes
E tudo mais enfim
Como bem antigamente... ora!   
Então, estamos conversados?!


Montes Claros(MG), 30-04-0213

RELMendes

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Por onde andará Mariá?

(sussurros de uma saudade!)
-Ah! Mariá...Mariá!...
O tempo passou ligeiro... 
Mas não apagou
Da minha memória...
Por um só instante sequer,
Tua linda imagem
De mulher-ternura
Que ora em mim sussurra
Copiosas lembranças de nós
E de nossas deliciosas caricias...

-Ah! Mariá...Mariá!
Dentre tantos rostos lindos
Que na vida conheci...
O teu...sem sombra de duvidas
De todos, foi o mais belo!

-Ah! Mariá... Mariá!
Eras mignon...sensível...
Acolhedora...carinhosa,
E portanto...de pronto,
alanceaste-me...
O coração descuidado
A alma vazia e carente  
O corpo sedento de amor  
E tudo mais enfim... ora!

-Oh! Mariá Mariá!
Tu eras verdadeiramente
Uma mulher-ternura
Que...a teu redor,
A todos fascinavas...
Sem economias!

-Para mim...ó amada Mariá!
Tu eras uma delicada
Miosótis dourada
Que inesperadamente
Desabrochara...discreta, 
No vadio asfalto da vida
Que recobria a poeira
Do meu fantasioso caminho
De jovem terno e sonhador

-A vista disso...ó amada Mariá,
De ti e de teus tantos encantos,
Eu jamais consegui me esquecer
Nem bem de vagarinho!
Portanto, eu só te perdi de vista
Vez que a saudade de ti
Ainda insiste em morar
Dentro de mim...viu?!

Montes Claros(MG), 05-01-2012
RELMendes

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Um lindo sorriso negro

(Por decerto é o de Da Elvira Gomes

    Minha querida vó materna)
Regado de imensa ternura
Busco insistentemente encontrar
Palavras versos ou rimas
Que possam descrever
Com mais propriedade enfim
Seu lindo sorriso negro
A reluzir ao clarão do luar
Vez que na terra só o contemplei
Em uma bela fotografia antiga
Porque quando nasci
Ele...o belo sorriso negro,
Já havia partido
Lá pra donde
O luar nos alumia  

Entretanto...
Pelo que me disseram
De seus extasiantes fugores  
Verdadeiramente
Era um lindo sorriso negro
Porquanto verdadeiramente
Negro...ora!
Sem sobra de dúvidas
Era um lindo sorriso negro
Espantosamente belo,
Porque essencialmente
Negro... ora!
Mas se na terra por desventura
Não pude desfruta-lo a contento
A vista disso...conclamo
Que...de sua falada belezura,
O digam as águas cristalinas
Do riachinho lá do Timbó!
Que...de seu encantamento,
O propalem o vento o mar
As cascatas e o látex
Que generosamente
Se derrama dos sulcos
Das seringueiras nativas
Lá das terras do Pará... ara!

Às vezes...cá com meus botões,
Em pensamentos lhe pergunto:
Ò formosa descendente de Zumbi    
Rei dos Palmares...
Ó formosa senhora
Do belo sorriso negro
Como o de uma Oxum encantada
Das águas doces lá do Timbó
Se só de ouvir falarem
De tua negritude sorridente,
Por ti inebriei-me totalmente
Será que...pra teres sido
Desta vida arrebatada tão cedo,
(33 anos)
Lá prás bandas do sem-fim
Donde nos alumia o luar...
Não terias tu também
Fascinado completamente    
Os luminosos olhos de Oxalá?
Ah!... Quem realmente saberá
Dizê-lo... senão os céus...
Onde fizera sua eterna morada!...

Montes Claros (MG), 20-11-2013
RELMendes

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Louvação ao dia a caminho

Um sussurro poético a Daniel
Bem do jeitão sertanejo

-Eta alvorecer lindo
 Da gota serena sô!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... sem hesitar,
Esse lindo raiar do dia
A caminho sô!

-Sendo assim... por gentileza,
Ó meu derradeiro pimpolho
Desperta desperta
Ligeirinho ligeirinho
Vem cá depressinha
E vamos que vamos caitituar
Esse lindo raiar do dia
A caminho... sô!
Porquanto quero muito
Sussurrar a ti...
Neste momento,
Em segredos tantos
Alguns versinhos singelos
Que falem das inenarráveis
Belezas da vida matinal
Que nesta hora do dia
Abusadamente despontam  
Generosas e abundantes
Pelos campos vales
E campinas verdinhas
Verdinhas

-Eta alvorecer lindo
 Da gota serena sô!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... sem hesitar,
Esse lindo raiar do dia
A caminho sô!

-Portanto... só por curiosidade,
Ó meu derradeiro pimpolho
Faz-me agora companhia  
E caminhemos...
A pés em nuvens,
Por este amanhecer afora
- Quiçá até bem lá acolá além
   Que nem mesmo sei eu
   Bem lá onde... ara!-
Mas... despreocupadamente,
E sem aperreio algum
Pra não espantar
Essas belezas do alvorecer
Que regularmente ocorrem
No arrebol da aurora... ora!

-Eta alvorecer lindo
 Da gota serena sô!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... sem hesitar,
Esse lindo raiar do dia
A caminho sô!

-À vista disto...
Ó meu derradeiro pimpolho
Se a ti isto te apraz
Espia espia...
Agorinha mesmo
Sem avareza alguma
O sol a dourar o horizonte
Ainda sombreado de noite
Em retirada...
Porquanto raiara o dia
A caminho... ora!

-Eta alvorecer lindo
 Da gota serena sô!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... sem hesitar,
Esse lindo raiar do dia
A caminho sô!

-Aliás...
Ó meu derradeiro pimpolho
Neste momento singular, 
Se bem a ti te aprouver enfim
Arregales bem estes teus olhos
Sonolentos e dorminhocos
E espia lá... aos confins,
Um belo campo de girassóis
Balouçantes e rodopiantes
A se contorcerem suavemente  
Ao sabor das rajadas
Do vento da manhã
Em busca da luz radiante
Do sol nascente... ora!

-Eta alvorecer lindo
 Da gota serena sô!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... sem hesitar,
Esse lindo raiar do dia
A caminho sô!
 
-A propósito...
Ó meu derradeiro pimpolho
Matutamente,
Peço-te também ainda
Que não percas a chance
De fartar-te por inteiro
Com a beleza indescritível  
Dessas borboletinhas
Multicoloridas e bagunceiras  
Que ora já despertas
Tresvariam ás margens
Desse riachinho displicente
Que percorre agilmente
Seu curso rumo aos confins
A borbulhar...
Suas águas cristalinas
Que nem lágrimas
De criança contrariada... ora!

-Ah!... E se ainda
Do teu agrado for
Ó meu derradeiro pimpolho
Então acocora-te por aqui
Á sombra desse pequizeiro
Em flor... 
E ponha-te a espiar
Por horas a fio  
De esguelha ou acintosamente
O vôo... bólido e balanceado,
Dessas buliçosas andorinhas
Que a trissar... lá das alturas,
Voejando coreografam cenas
Ligeiras e sincronizadas
Como se fossem elaboradas
Por bailarinas aladas

-Eta alvorecer lindo
 Da gota serena sô!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... sem hesitar,
Esse lindo raiar do dia
A caminho sô!

-Por fim... olhem só!
Alanceados de encantamentos
Que a nós sertanejos
Nos transcendem
A alma... o coração e olhos
- marejados de riachinhos
- enfeitados de girassóis
- bordados de andorinhas
  etc etc e tal!
Então matutamente
Cá nos quedamos nós
A esperar um novo raiar
Do dia a caminho...
Que por decerto vira
Indubitavelmente
Novamente amanhã... ora!

Ah!... Então vamos que vamos
Caitituar... também,
Esse novo lindo raiar do dia
A caminho sô!

Montes Claros(MG), 23-06-2002

RELMendes

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ANTEPAROS

Eita trem oportuno sô!
Então a pés em chão
Sem pestanejar se quer
Sim´bora lá  saber
Do que se trata
Esses anteparos enfim
Vez que são tão oportunos
Ao cotidiano de nossa vidinha
Nem sempre verdinha
Verdinha... ara!

Se mingau quente
Sempre se come
Pelas beiradinhas...
Pra não se queimar a língua
Ui!... Então é preciso ter
Muita precaução
Antes de degustá-lo... ara!

Se o tal príncipe
Encantado
Pode ser apenas
Um sapo sem eira
Nem beira...
Ou um terrível vilão...
Ui!... Então é preciso ter
Muito cuidado
Antes de aconchegá-lo
Ao peito apaixonado... ara!

Se no reverso da historia
A tal bela princesinha
Pode não passar
De uma arengueira Malévola...
Ui!... Então é preciso ter
Muita cautela
Antes de agasalhá-la
Ao coração seduzido... ara!    

Se água de coco
Industrializada
Pode ser apenas
Salmoura...
Ui!... Então é preciso ter
Muita circunspecção
Antes de bebê-la... ara!

Se nem tudo que reluz 
É ouro...
Ui!... Então é preciso ter
Muita atenção
Antes de adquiri-lo... ara!

Se quem dá festa
Todo dia
Morre mendigo...
Ui!.. Então é preciso ter
Muita ponderação
Antes de fazê-las ... ara!

Se até os deploráveis pichilecos
Ocorrem onde jamais
Deveriam acontecer...
Ui!... Então é preciso ter
Muita cautela
Na hora da eleição... ara!

Putzgrila!... Se assim é então
D´ora avante sem perder
A ternura jamais...
Revistir-me-ei sempre
De muita cautela
Muita ponderação
Muita atenção
Muita circunspecção
Muito cuidado
Muita precaução
Etc etc... ara!

Ah! E d´ora em diante também
Sempre antes de tudo
Que precipitadamente
Agora eu pretenda fazer...
Tenham por certo
Que indubitavelmente
Lançarei mão de todos
Esses muitos anteparos
E de tantos outros que ainda
Por acaso houver
Porquanto pretendo
Deliberadamente
Evitar quaisquer desagradáveis
Aborrecimentos futuros...
Né não sô?

Montes Claros- MG, 18-08-2015
Romildo Ernesto de Leitão Mendes
(RELMendes)