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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Garimpei no meu peito pétalas de gentileza!


Hábil em fazer faxina
Nas gavetas da memória,
Onde desleixado escondo
Gratas lembranças de tempos
Hoje já bem distantes,
Surpreso,sempre descubro
Interessantes figuras humanas
Como a da querida babá Alexandrina
Que tendo acalentado minha mãe,
Também foi marcante referência
Na primeira etapa da minha vida.

Já passou da hora
De revelar ao mundo a generosa figura
De tão carinhosa flor-mulher,
Que durante a vida inteirinha
Só se dedicou a criar e a amar
Filhos de matriarcas,
E não os que dela eram.

Agora, vou apresentá-la ao mundo
Neste andor de versos
Carregado pelos fortes braços da gratidão,
Já que nos gostosos braços dela
Saboreei ternas gentilezas maternas,
Que nem no recôndito de sua alma
Ela jamais almejou cobrar
Qualquer retribuição!...

Avexado...
Apresso-me em recolher
As pétalas de gentilezas
Que ela delicadamente semeou
Lá no tempo em que eu desfiava alegre
A infância que ligeira passou:

-Lágrimas birrentas?!...
Ah! Eu as recolhia logo
Após ela me acalentar
Com o sincronizado e lento balanço
Dos seus fartos e macios seios,
Que generosa a mim oferecia;

-O meu adormecer deslumbrado
Com as belas histórias
Acerca da vida dos avôs maternos
Que ela, por repetidas vezes,
Não hesitou contar;

-Ela saciava a fome da meninada
Com um tal bolinho capitão
 (arroz, feijão, banana prata e farinha d’água)
Que amassava na palma da sagrada mão; 

-Ah! E aquele suave cheiro agradável
De flor de laranjeira?...
Ela o conservou
Até mesmo depois de partir
Pra perfumar o céu
Ao se transmutar
Em reluzente estrela...

Oh! Essas perfumadas pétalas de gentileza
Eu corajosamente
As garimpei no meu peito
(com uma sagaz bateia)
Lá onde em segredo
As escondia da saudade
Que sempre traz consigo
A inconsequente, e maldosa tristeza!...  

Agora...
Já transmutadas em versos
As postarei desnudadas à vista de todos,
Pendurando-as ledo,
No varal em que costumeiramente
Publico todos os meus poemas...


Montes Claros(MG), 23-03-2012
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segunda-feira, 2 de abril de 2012

Só um cadim de ternura bastava!...


Com um cadim de ternura
A sábia árvore velha
Oferta generosa sua sombra fresca 
A quem dela se achega.
E sendo assim
Só deixa transparecer
A agradável sensação
De prazeroso frescor.
Dessa maneira
A sábia árvore velha
Consegue disfarçar a feiúra...
De suas raízes desnudas!...
  
À parecença da sábia árvore velha,
O ser humano (ao envelhecer)
Também deixa à mostra
Suas afloradas raízes ( feias ou belas),
Que ora pela indelicadeza...
Espantam os curiosos
Que imprudentes
Delas se aproximam...
Ora por conta de tanta ternura
Encantam àqueles  
Que deslumbrados
As contemplam!...

Feliz daquele ser humano
Que fincou suas raízes
No singelo canteiro da ternura,
Porque sempre será capaz de surpreender
(Com um sofisticado encantamento)
O divino momento do encontro!...

À parecença dos belos ipês lilases,
O ser humano que se alimentou
Com a saborosa seiva da ternura
(Mesmo na ancianidade tão temida)
Sempre semeará pródigo
Pétalas de gentileza
Ao entorno de tudo
Por onde pisarem seus pés delicados,
De bondoso e terno mensageiro!...    

                                (Jo 12,32)

Montes Claros(MG), 01-04-2012
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quarta-feira, 28 de março de 2012

Vem sim´bora pra cá! Um apelo insistente...



Ouço...
Frequentemente...
O rugido sôfrego do mar insistente,
Tentando seduzir-me...
Com lamuriosa persistência...

Volta! Vem! Retorna!
Ruge fremente o verde mar distante!...

Sabe,
Ele sussurra... sussurra sem parar...  
Lembranças vagas de momentos corriqueiros,
Que talvez um dia,
Eu os tenha vivido por lá...

-As velas das jangadas já foram içadas
E soçobram livres ao sopro do vento...
-As redes beges, dependuradas na varanda,
Balouçam vazias...
-Os potes de barro cheios do refrescante aluá
Desejam ansiosos se esvaziar...
-Siris, lagostas e caranguejos buliçosos
Esperam apavorados, à hora de serem
Imersos na água fervente, temperada
Com sal, cebola e cheiroso coentro...
-Sucos pra saciar a sede?!...
Ah! Lá tem aos montes:
Maracujá, caju, graviola, siriguela, murici...

Volta! Vem! Retorna!
Ruge fremente o verde mar distante!...

Vem enquanto há vida...
Pra na praia ser vivida!...
Retorna ligeiro, enquanto há tempo,
Para realinhavar, a miúdos pontos,
Elos eternos de referência
Bruscamente rompidos
Pela acintosa fúria do tal destino,
Que obstinado,
Dispôs- se inconsequente
A desfiá-los por inteiro...

Será que o mar descobriu
Que eu sou um colecionador
De corriqueiros momentos de felicidade?!... 

Ah! Sei lá...
Não sei se isso é loucura...
Não sei se isso é apenas ilusão passageira...
Não sei se esses apelos são só elucubrações
Que muito me espantam...

Só sei que travesso,
Escuto a zombar...
O lamento envolvente
Do sedutor mar suplicante:
Volta! Vem! Retorna!
Ruge fremente o verde mar distante!...

Montes Claros, 25-03-2012
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sexta-feira, 23 de março de 2012

Juntando retalhos de saudade...


Saudade do incandescente pôr do sol
Que, logo após completar seu escondimento,
Perrmitia a olhos curiosos vislumbrar
O infinito firmamento
   (pontilhado de reluzentes estrelas),
Esbanjar generoso
O seu inenarrável encantamento...

Saudade do luar prateado
Que enluarava os verdes mares,
E das alvas areias finas da praia
Onde ondas apaixonadas
   ( uma após outra)
Derramavam-se alegres
E em repetida sequência...

Saudade da água fresca da quartinha,
  (num sombreado canto da casa colocada)
Saudade da varanda caiada de branco,
Saudade da rede puída pela maresia,
Balançando... balançando...
Ao sabor do forte vento...

Saudade de me aboletar numa delas
Só pra ouvir, bem de pertinho,
O barulho do quebrar das ondas
A bordar na areia rendas de labirinto
Com suas brancas espumas abundantes
Lá na bela enseada do mar indolente
De Jericoacoara...

Saudade de mergulhar no Timbó
  (riacho fresco de águas cristalinas)
Que a sussurrar cortava as terras ressequidas
Do sitio de meus avos maternos:
A bela cabocla Elvira, mulher do galego João Gomes
De vivos olhos azuis reluzentes.
Ah! O Timbó era um riacho tão lindo.
 Nele corria muita água fresca
 E, às suas margens,
 Bastante flor nascia...

Saudade de comer pitu,
  (um baita camarão de água doce)
Que (com peneira)
Lá acolá, no dito riacho,
Muitos se podiam pegar!

Saudade da mesa posta,
Repleta de saborosas iguarias
Que só de se olhar de soslaio,
Prestes nos dispúnhamos a consumar
O terrível pecado da gastrimargia:

Peixe assado na brasa,
Recheado de lagostas e queijo coalho;                  
Salada arretada: legumes, verduras,
Rapadura e até cocada;
Caju cristalizado ou em calda;
Banana seca e sapoti;
Buchada, frango à cabidela,
Bolo de carimã, pé de moleque
Ou grude de castanha de caju
Como lá se chama;
Macacheira cozida e tapioca besuntada   
De manteiga derretida;
  (Claro, depois de desengarrafada!)
Tudo ali
(bem pertinho a se ofertar)
Para num piscar de olhos
Ser degustado                 
Por um bando eufórico
De alegres esfomeados...  

Arre égua!
Só me falta agora sentir saudade
De engolir uma bilha cheinha
De cajuína fresquinha
Pra saciar-me a sede
  (do meu quase maluco desejo)
De voltar ligeiro pro Ceará dos meus sonhos,
  (ainda que seja no lombo dum jegue)
Porque é a terra onde está meu aconchego,
E que, neste exato momento
Do meu poético desvario,
Oferta-me:
O colo generoso como regaço,
Os braços abertos de pura alegria,
E os macios seios ensolarados da terra
Pra que eu possa (certamente um dia)
Lá repousar saciado por inteiro...


Montes Claros (MG), 16-03-2012
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