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domingo, 17 de maio de 2015

Um ancião peregrino montou sua tenda em Vinhedo... Até voltar à casa do “Pai”!


 
 1924 - 2014


-Cantar em versos, quer em poema ou crônica,
lembranças vivas de uma boa e santa amizade
Como a de D. Joaquim, tesouro divino com o  qual
o “Senhor”...surpreendentemente, um dia, me agraciou
por mais de meio século de minha existência...
para me alumiar o percurso da travessia dessa vida
rumo à casa do “Pai”...é desnudar pelo mundo afora
a imensa gratidão sentida pela vida desse bom
e santo amigo, que não pretendo esquecer jamais,
nem bem devagarinho...

-Ah! Verdadeiramente... a voz dessa mesma gratidão
impele-me a dizer, no momento, que além da luz
que esplendia abundantemente da “Sabedoria”
de seus generosos conselhos, quando pedidos,
outros tantos dons e carisma enfeitavam, também,
a alma gentil desse santo homem de Deus:

- Nesse bom e santo amigo...não havia dolo algum,
nem nada de humanos desvarios, tampouco,
vez que estes desconhecem o reto caminho;
- ele era o bom e santo amigo de muitos amigos;
- ele sempre transbordava de santa alegria...
quer estando triste ou contente;
- ele era singularmente pródigo...
na caridosa arte do acolhimento;
- ele...no silêncio de sua cela,
sempre partilhava com Deus a dor do amigo sofrido,
que, por algum motivo, perdera os melódicos
acordes da vida...

-Habilidossísimo...  o bom D. Joaquim
sempre dava cadência serena
aos aborrecimentos do cotidiano
porquanto...cuidadosamente, os dissipava sempre
com sua santa paciência que desde jovem a burilava,
no dia a dia de sua vida monástica...

-Esse santo intelectual amigo...
em sua amada cela monástica,   
ao longo do tempo de sua fértil vida religiosa...
habilidosamente ia colhendo, em fartas porções,
através da escuta da obediência e da oração persistentes
os sabios ensinamentos da Santa Regra de Bento.
                         
-La no “Mosteiro de São Bento” de São Paulo, 
o justo Joaquim exercera, dentre tantas funções,
o oficio de abade...
(que é ser de todos...o maior servidor,
na comunidade pastoreada...)
e ao se tornar abade emérito, o sábio ancião peregrino
Prosseguiu generosamente a cultivar as amizades
que amealhara durante o longo e fecundo
trajeto de sua vida tão espiritualmente fértil...

-À sombra dessa abençoada amizade...
que carinhosamente chamo de  relva de ternura,
eu e tantos outros filhos espirituais, dele,
encontramos a referência segura
para permanecermos firmes...ainda hoje,
no tão decantado e reto caminho
do “Amor Divino” que...certamente,
nos conduzirá à casa do “Pai” !

-Até breve...meu santo e iluminado... Amigo!

(Mt 5,14-16)
Montes Claros (MG), 17-05-2015
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terça-feira, 12 de maio de 2015

O último Poema!

Ouça!


Apagando o crepúsculo
A tarde findou às pressas.

A noite ainda menina
Se derramou dos versos
Na enseada do adeus
Argentando-a de clarão do luar.

O meu barquinho
Lentamente,
Singrou mar adentro
Sem avisar a ninguém.

Ara! E eu vestido só
De mim mesmo
Simplesmente parti
Sem acenar a mão
Aos versinhos singelos
Que vieram ao cais
Se despedir de mim.

Montes Claros MG, 10-05-2015
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Quem sou eu?

-Eu sou apenas
Um passarinho...
- Ora sonso
- Ora serelepe
Que sempre foge
Espantado...
Se importunado
Por alguns curiosos...

-Ah! E que sempre
Refugia-se lá
Pelas bandas
Do detrás
De si mesmo,
Que deve ficar...penso eu,
No esconderijo
De seus versinhos
Singelos.

-Enfim, eu sou apenas
Um passarinho...
Ressabiadíssimo,
Que voa e voa
Até pousar
No aconchego
Macio de sua amada...
E fazer a noite bocejar
Arrepiada de inveja.

Montes Claros MG 04-05-2015
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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Frei Jordão, o alegre confessor do Noviço esparolado

                                        Frei Jordão de Oliveira OP

Meu Deus! Quando minha memória se dispões a passear lá no passado, Ela sempre encontra algo de interessante a rememorar. Portanto, vamos acompanha-la em suas andanças pra ver o que ela ira cascavilhar lá no passado já tão distante.
Cá comigo tenho por certo que, novamente, nos conduzirá ao Convento dos dominicanos, situado à rua, do Ouro, bairro da Serra em Belo Horizonte, lá pelos idos de 1961.
Desta vez para falarmos de um cara incrível, e muito santo, frei Jordão.
E por que não?
Ora!  Se nem o tempo conseguiu apagar em mim suas santas lembranças, não serei eu quem as esconderei vez que não seria nem pertinente ao relato, nem tampouco justo ao protagonista.

Quando conheci frei Jordão, ele já era um frade presbítero e vice mestre de noviços. Era um jovem homem de sorriso afável e permanente.
Penso que frei Jordão, em sua juventude, como eu deveria ser “um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones”.
Vez que em sua maturidade, quando o conheci, apesar de acometido por uma terrível doença – uma tuberculose calopante adquirida em uma de suas extravagâncias esportivas, subir a “Serra da Piedade” correndo sem agasalho- sempre o encontrávamos perdido em alegria e brincadeiras interessantes. 
Esse cara era verdadeiramente um santo.
Dias após a minha tomada de hábito, eu o escolhi para meu confessor  vez que se ao Mestre de Noviços, considerado a Regra Viva do convento, cabia conduzir-nos ao conhecimento e a vivência do carismas da Ordem, aos demais frades presbíteros, segundo a livre escolha de cada noviço, competia  ouvir-nos em confissão e dar-nos orientação espiritual .

Então, contar-lhes-ei um interessante fato que confirma a santidade desse bom homem com quem tive a oportunidade de conviver no convento por alguns poucos meses:
Certa feita, numa tarde qualquer daquele saudoso tempo, quando fui me confessar, ao bater à porta de sua cela deparei-me com uma enternecedora cena de profunda paciência consigo mesmo e com suas limitações.
Lá estava ele prostrado ao solo de braços abertos e rindo se si mesmo, porque fora tentar rezar de joelhos e caira de bruços ao solo. Ao entrar, disse-me que já se encontrava naquela posição a mais de duas horas a espera de alguém que viesse ajuda-lo a se levanta.
Pediu-me que lhe desse o braço para que pudesse se apoiar e por si só se levantar. Então compreendi que, realmente, ele se encontrava muito debilitado. Mas, a maior surpresa, foi quando me pediu pra ajuda-lo a trocar o hábito que tinha se sujado porque era muito branco.
Meu Deus!... O santo homem era só pele, osso e sondas excretoras do excessivo fluido pulmonar que escorria de  seu magérrimo corpo franzino. E no entanto, nunca ninguém o vira  lamuria-se  de nada. Pronto! Daquele momento em diante, eu já não tinha problema algum! Uma vez recomposto disse-me carinhosamente:
- Frei Boaventura, estou a sua disposição! O que o senhor deseja?
Profundamente encabulado,  disse-lhe:
-Vim apenas reclamar de quase nada. Mas, ao observa-lo com tanta paciência para consigo mesmo, já obtive a paz que eu vim procurar. Agradeci-lhe ternamente, o acolhimento e parti curado, de alma e de mente.     

Conta-se que esse tal frei sorriso, com o qual eu tive o privilégio de conviver ainda que por pouco tempo, morreu brincando com seus confrades que cantavam a Salve Rainha na hora de sua morte.

- “Gente, se desafinarem na minha missa de “réquiem” como estão desafinado agora, eu salto do caixão e saio correndo por ai afora”. 

Contaram-me, também, que após dizer isto, sorriu, respirou fundo e partiu.
Valeu, homem sorriso!
Até breve!  
  
Montes Claros, (MG), 12-04-2015

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Ficar atento ao óbvio evita canalhices


Clarice Lispector já disse que “o óbvio é a verdade 
mais difícil de ser entendida”,concordo em gênero 
e numero com ela. 
Ora! Mas, o óbvio nos permeia a vida a cada instante do nosso cotidiano. Assim sendo, é preciso estarmos atentos ao óbvio.  
A prova da consistência dessa premissa da ilustre escritora é, a meu ver,  facilmente constatável também no trânsito. Sim, no trânsito também! Vejamos: 
- Ciclistas pelas calçadas prestes a atropelar transeuntes; esportistas fazendo caminhada e correndo nas ciclovias destinadas a ciclistas; pedestres com crianças atravessando ruas com o semáforo vermelho e  correndo o risco de serem atropelados; motociclistas, profissionais ou não, a disputar espaço mirrados em vias urbanas e grandes rodovias, serpenteiam, perigosamente ou imprudentemente,  entre veículos de pequeno, médio e grande porte até se abalroarem mortalmente; ônibus e carretas ultrapassando em alta velocidade por  “carrefours dangereux”   
( cruzamentos perigosos), e assim por diante etc etc etc...

Tudo isto poderia ser evitado caso tivéssemos um pouquinho de ética.

Mas o que seria ética em se tratando de respeito ao coletivo no transito?
Ora ! segundo o prof. Clóvis de Barros Filho, em seu livro, “ TODOS SOMOS CANALHAS”, nos esclarece que: “Ética é a vitoria do coletivo sobre as pretensões individuais.”  
Aprendeu gente?   

Ora!... Ora!... Ora!... Mas, quem não sabe que ciclovia é pra ciclista, calçada pra pedestre, e que sinal de transito é para ser respeitado, né não?!
Tudo isto me parece tão óbvio, tão transparente, tão ético e fácil de se compreender, né não?!
Mas o desvairismo do individualismo vigente como que nós subtrai a noção do bendito óbvio- repeito ao coletivo- e nos faz parceiros da indesejável morte e de tantos outras mazelas facilmente evitáveis.
Pois é!  A meu ver quem não se adapta ao óbvio das leis do transito, que dizem respeito ao nosso sagrado direito de ir e vir com segurança, deveria ir morar na Cornualha... ora bolas!

Montes Claros MG, 11-05-2015
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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ode ao silêncio

Quando
O silêncio
Se derrama
Do ali
Não sei de onde
Generosamente,
Sobre mim...
O barulhento,
O meu aqui
Sem lei alguma
Se aquieta silente
E pões-se a trilhar
Bem devagarinho,
Por onde Deus passa
E o homem se encontra
Ou seja:
Por caminhos
Orvalhados de paz!

Montes Claros- MG, 08-05-2015

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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Alumbramento

Embora os alvoreceres
Incandescentes sejam
Coisas corriqueiras aqui
Pelas bandas dos céus
Desses sertões longínquos,
Mesmo assim sendo
Ainda alumbram-me 
A cada amanhecer.
A mim e a todos aqueles
Que os contemplam
Extasiados.

Montes Claros – MG 06-05-2015
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quinta-feira, 30 de abril de 2015

A fuga da verve

Dirricei
Que dirricei
Com tanta avidez
Meus versinhos
Singelos do âmago
Da bendita verve
Que ela se debandou
Lá pras bandas
Daquela nuvensinha
Feita de nada com coisa
Alguma.
Ara! Agora, tô que to
Capengando
De saudades dela!

Montes Claros- MG 30-04-2015

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sábado, 25 de abril de 2015

Quereres


Ah! Eu os tenho
Tantos!
Quereres de paz
Quereres de perdão
Quereres de ficar
Horas a fio
Contemplando
As estrelas cadentes
Rasgarem a saia
Da noite.
Da noite vadia... ora!

Montes Claros (MG), 25-04-2015
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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Pronto! Vou murmurar!


Uma parafernália burocrática infernal permeia
o cotidiano dos idosos. É preciso que
o idoso seja um “ expert” em “mahamudra”
e em “calistemia” para que possa suplantar
os inúmeros obstáculos burocráticos
e terem acesso aos tais benefícios aos
quais faz jus, segundo o ordenamento
jurídico do país. Tais como:
“ Estatuto do Idoso”; Código do
Consumidor etc... etc....
Pois é... não fora perverso o processo
para se obter os documentos que faz jus
o idoso, um portador de tais direitos,
até que seria hilário. Porque para
obtê-los, há que se realizar uma maratona
infindável pelas inúmeras repartições
públicas ( CRAS, INSS etc.. etc...),
a ponto de não se dispor o idoso a
concluir a tão anelada tarefa.
Poucos idosos conseguem obter
os documentos complementares
para poderem usufruir dos tão decantados
benefícios: Como então se dispor a
busca-los se o custo beneficio para
obte-los não corresponde às promessas
publicitárias? Talvez não seja tão absurdo
afirmar que tais benefícios se aproximam
muito de uma publicidade enganosa. 
Isto é uma vergonha!  

Montes Claros (MG), 20-04-2015

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sábado, 18 de abril de 2015

Repaginando lembranças

      Tributo à Da. Yvonne Oliveira Silveira, "Deusa das letras" do Norte de Minas!              

                              (poecrônica)
Como que do nada
Vem-me à lembrança
O "Velho Casarão" da Fafil
E suas altas soleiras
Por onde... cotidianamente,
Eu palmilhava em busca
De satisfazer minha apetência
De dar sentido
"Ao caminhar de mãos dadas”
De Drummond.

Ao contemplar
Esse “Velho Casarão” da Fafil
E suas altas soleiras...
Pululam-me n’ alma
Recordações das mais venturosas,
Que nem a batuta do tempo
Conseguiu extorqui-las de mim!...
Ah, quantos sentimentos de gratidão!

Nesse 'Velho Sobradão da Fafil”...
A mestra, Yvonne Oliveira Silveira
Espargia, generosamente, fragmentos preciosos
De literatura brasileira e portuguesa
Que, a época, tanto umedeceu o solo intelectual
Deste agreste "sertão robusto":

-Partilhara, sem economias,
 Poetas e poesias
 (para que, mais rapidamente, pudéssemos sorver
  as emoções poéticas ali descritas   
  com tanta perspicácia e inenarrável ternura);
-Lapidou, também, com esmero
  e habilidade incontestáveis,
 O nosso até então insuficiente
 E grosseiro gosto literário...

E hoje,
Ao degustar poetas e poesias...
Percebo que ela, Yvonne Oliveira Silveira
também se perpetou
Profundamente,
Na imortalidade desses imortais
Aos quais nos ensinou a amar
Com imenso desvelo...

Por esses...
E por  tant’ outros  motivos,                                            
Grato, compreendi que sair´... da tenda
Do nosso escondimento , é preciso...
Não só pra observar e "ouvir estrelas",
Mas, também, para repaginar gratas lembranças
Do Velho Casarão da Fafil,
De suas altas soleiras...
E de Yvonne Oliveira Silveira
Vez que por lá tanto conhecimento, sorvi...
Tantos poetas, conheci...
E tantas poesias, aprendi!...

Montes Claros (MG), 19-06-2010
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quinta-feira, 9 de abril de 2015

A “Serra da Piedade” e o noviço estrambelhado


(O exato momento em que eu recebia o hábito de noviço dominicano em BH.)

Vez por outra minha memória passeia lá pelas bandas da Serra da Piedade.
Isto porque por volta do primeiro semestre de 1961, eu e meus companheiros de noviciado fomos descansar lá pelas bandas da tal “Serra”, para nos aliviarmos um pouco das preções da vida conventual impostas pela Santa Regra Dominicana sobre o nosso cotidiano de frades principiantes.

Se bem me lembro, nos levantamos ainda de madrugada. Os sinos do convento badalaram efusivamente por volta das quatro horas da manhã. Dirigimo-nos à capela; rezamos as matinas; tomamos um café substancial e entramos na velha “jardineira” que nos conduziria à tão decantada “Serra”.

A discrição monástica amainava a euforia que permeava  nossas almas ansiosas por um pouquinho de liberdade. Enfim, já  estávamos vivendo enclausurados há mais de quatro meses naquela santa casa de São Domingos em Belo Horizonte.

O “choffer”, como chamávamos o motorista à época, pos-se atentar  ligar a velha “Jardineira” que se negava, veementemente, a pegar.
Contudo, depois de algumas tentativas o motor deu sinal de vida. Pegou e pusemo-nos a estrada. A tal ‘Jardineira” andava tão devagar que imaginava comigo mesmo:
- Não seria melhor irmos a pé?
Mas mantive um semblante de paz como é de bom tom a um aprendiz de frade.

Duas ou três horas depois de uma viagem atribulada pelo desconforto da poeira e a lentidão de locomoção do nosso veiculo,nos deparamos na beira da estrada com três senhoras de semblante angelical que nos pediram carona. Eram três irmãzinhas de Jesus da congregação fundada por Charles de Fouceuld. Ficamos muito encantados com a essência da vocação dela:
- Viver a vida oculta de Nazaré.
Na realidade a época eu desconhecia essas ricas peculiaridades de cada uma das inúmeras maneiras de viver a vida religiosa na Igreja Católica.
Mas de repente, a “velha Jardineira” parou e as três freirinhas desceram e logo saltaram na boleia de um caminhão que transitava pela estrada e partiram, deixando-nos encantados.
Fiquei sabendo depois que antes de elas abraçarem a vida religiosa, uma era medica, a outra era engenheira e a terceira era advogada. Enfim, eram três mulheres de muito valor que se dispuseram a largar tudo para seguir Jesus com radicalidade.

Bom!
Alguns minutos depois estava-mos aos pés da “Serra”. Descemos da “Jardineira” e pusemo-nos a escala-la lentamente.
Pouco a pouco o cansaço e a fome se apoderaram de nós. Quanto mais subíamos, mais distante nos parecia o pico da “Serra”.
Eu mesmo já me perdia em murmúrios secretos. Pois um frade, mesmo que principiante, não deve reclamar de nada, nem tampouco deixar transparecer tristezas. Mas, embora contrariadíssimo e aborrecidíssimo, lá ia eu subindo, subindo rumo ao cume da “Serra” onde ansiava usufruir um pouco de maior intimidade com Deus.

Já se fazia crepúsculo quando chegamos ao topo da amada “Serra” e à frente da bela capela de Na Sra da Piedade. Então, nos desfizemos das cargas de mantimentos que trazíamos nos ombros. Gente, o vento assoviava estridente e gélido, era frio pra dá com pau! Imediatamente após a chegada, nos introduzimos no átrio da capelinha e nos posemos a cantar às Vésperas e as Completas, que são orações que concluem o dia de oração de qualquer frade. Logo em seguida nos lançamos, cada um em seu catre, sem ao menos nos lembrar que estávamos famintos.  

Meu Deus! Nunca um alvorecer fora, em nossas vidas, tão esperado. Porque nem o frio congelante, nem  a fome de lobo faminto, nem tampouco os abusados pernilongos nos deram um só instante para pregarmos as pestanas durante a noite inteirinha.
Portanto, mal soara a primeira badalada do sino da capelinha, saltamos dos triliches e sem lavar a cara ou fazermos a higiene bucal, no dirigimos, de imediato, à capelinha para cantarmos  as “Matinas”, dando  assim inicio aos primeiros louvores diários de um frade . logo em seguida fomos degustar a primeira alimentação do dia que nós mesmos tratamos de preparar: Um pãozinho amanhecido, umas bolachinhas daquela bem simplesinhas, um chazinho feito com água de bica e um cafezinho bem ralinho.

Após essas primeiras façanhas do dia, nos pusemos a meditar ao ar livre e a contempla as belezas da natureza que Deus criou.
Passada a fase do imenso encantamento, nos dividimos em equipes para dá encaminhamento as tarefas do dia. Coube a mim, em religião chamado frei. Boaventura, ao padre mestre ( frei Emammuel Maria Retumba), a frei Leandro, frei Guido e a frei João Evangelista  limparmos a velha capelinha muito empoeirada.
À medida em que a limpeza se procedia, descobri atrás do altar-mor um velho e lindo crucifixo jogado às traças. Chamei o padre mestre e  mostrei-lhe o belo crucifixo, dizendo lhe:
- Podíamos leva-lo para a nossa capelinha do noviciado. Então, ele disse-me:
-Para tanto você terá que pedir o crucifixo ao frei Rosário. Você tem coragem?
 Disse-lhe sorrindo:
-Tenho! Por que não.
Então, zombando de mim, disse-me:
-Então, não perca tempo, vá logo!
E lá fui eu todo serelepe rumo a ermida de frei Rosário.
Não me lembrara em momento algum de sua fama de bravo.
Ingenuamente, pus em sua bater à sua porta sob os olhares curiosos de meus companheiros de noviciado. De repente a porta se abriu e eu me encontrava face a face com uma figura carrancuda de dois metros de altura.
-Bom dia! Disse-lhe eu sorrindo.
-Bom dia! Respondeu-me aos berros.
- O senhor poderia dar-me este belo crucifixo para colocarmos na capelinha do noviciado.
Esbravejando respondeu-me:
- Você não tem o que fazer, coloque o crucifixo imediatamente onde você o achou.
Virou-se e bateu a porta em minha cara. Pra dizer a verdade em momento algum fiquei zangado com ele. Mas muito me aborreceu a gozação explicita dos outros frades. Coloquei o crucifixo onde achei e não toquei mais no assunto.

Por fim, completada nossa rápida estadia prevista na “Serra da Piedade”, arrumamos nossas tralhas e retornamos ao convento de origem para darmos prosseguimento à  nossa aprendizagem religiosa nos moldes da regra de São Domingos.
Passados uns três dias de nosso retorno ao convento, Pe. Mestre bateu à porta de minha cela, abriu-a e disse mim:
- Frei Boaventura, o Frei Rosário está lhe esperando lá na porta do noviciado.
Embora arredio, ou melhor, tremendo nas bases, respirei fundo e dirigi-me à porta do noviciado. Ao abri-la, muito encabulado, o cumprimentei com um discreto aceno de cabeça e um sorriso amarelo, e ele pois se a falar em alto e bom som:
-frei Boaventura, aquele crucifixo que você gostou não posso dá-lo porque não me pertence. Mas, trouxe este que acabei de ganhar porque penso que ficará muito bem na Capelinha de vocês. Boa tarde!
Gente, o presente era de veras belíssimo! Foi uma grande festa no noviciado.
Ah! Boquiabertos com esse inesperado arroubo de generosidade do nosso nobre ermitão turão, eu e meus companheiros de noviciado, alem de perdidos em espantos de alegria, apreendemos, profundamente, que também por trás de um homem grosseiro pode haver um ser generosíssimo.

Então, até a próxima crônicasinha da época desse ex-noviço estrambelhado.

Paz e bem!

Montes Claros (MG), 09-04-2015
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terça-feira, 17 de março de 2015

A Centenária Menina “ Flor do Sertão”!

 (Mimo à Da. Yvonne Oliveira Silveira) 



-É incontestável que/ outra flor por aqui/não há...
Mais formosa e tão sábia /quanto ela/
Nem aqui/ neste sertão amado/
Nem/ tampouco/ lá acolá...alhures/
Por esse imenso mundaréu afora.
Ah/ mas não há mesmo!...
Porque além de muito /formosa/...
Em sabedoria.../pelas bandas de cá/
Generosamente/ela transborda...à beça!

-Ah! Fora eu um trovador...
- Daqueles pra valer –
Debulhar-me-ia em belas trovas...
Lindos poemas e /encantadoras/ poesias/
Só para decantar...em prosa e versos/
Os seus incontáveis talentos/ literários/..
E tantos outros mais que/ enfim/ a enfeitam/
Ao longo do percurso de sua vida/ainda hoje/
Esplendidamente/ laboriosa!

-Mas/ como sou apenas um poetinha /brejeiro/
- Artesão/quiçá/ tão-somente/ de versinhos singelos -
Despeço-me/então/ aqui/ dizendo de peito aberto assim:
- Ó querida poeta Da Yvonne Oliveira Silveira...
Uno-me/ profundamente/ enternecido/ e jubiloso/
Às vozes deste amado sertão...que a ti ama de paixão/
Pois/elas/ por aqui e alhures/não hesitarão jamais/
Em proclamarem/abertamente/ esta bela louvação...
Tão justa/porquanto tão verdadeira:
- Ó amada escritora admirável...sobremaneira/
Foste/ és/ e sempre serás... pra todos nós
Desse amado Sertão/ montes-clarense/
A eterna primeira dama... Da versátil e rica
Literatura Norte Mineira!”

Montes Claros (MG), 17-03-2015
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sábado, 7 de março de 2015

Para mim o "Largo do Arouche" é um caleidoscópio


 “Se todos os caminhos levam a Roma, em Sampa, todos os caminhos conduzem ao “Largo do Arouche”.
Bom. Quando eu retornei-me a Sampa, em 84, fixei residência, inicialmente, nesse belíssimo largo. Sempre o considerei deslumbrante. Fiz até de minha janela um caleidoscópio, só para espiar, inebriado, o vai e vem irrequieto das pessoas sempre a se movimentarem por lá, no belo largo... Ora! Evidentemente, que esse vai e vem era porque por lá havia um fluxo, intenso e constante, de toda sorte de pessoas, que, por um motivo ou por outro, lá iam, e, iam satisfeitas, já que por lá, de tudo, em variedades, tinha em abundância: Árvores pra sombreá-las; floricultura bem sortida de toda espécie de flores e plantas para encantá-las; restaurantes, bares, bancos de praça para se assentarem; crianças correndo; jovens casais enamorados; casais de idosos se acariciando; e, além do mais, do anoitecer, até o climatério da noite vadia, todos os dias, as frenéticas “Bonecas” lá se faziam presentes para embonecar o Largo do Arouche e alegrá-lo mais ainda. Embora, voltasse tarde e muito cansado do trabalho, por volta das 23hs, assim mesmo, eu gostava da esculhambação e da zorra que as famosas “Bonecas do Largo”faziam lá embaixo”.

(FRAGMENTO DO MEU LIVRO: "SEGREDOS... PRA QUÊ OS QUERO?" - CAP 2

Montes Claros (MG) 01-12-2014

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