Total de visualizações de página

sexta-feira, 23 de março de 2012

Juntando retalhos de saudade...


Saudade do incandescente pôr do sol
Que, logo após completar seu escondimento,
Perrmitia a olhos curiosos vislumbrar
O infinito firmamento
   (pontilhado de reluzentes estrelas),
Esbanjar generoso
O seu inenarrável encantamento...

Saudade do luar prateado
Que enluarava os verdes mares,
E das alvas areias finas da praia
Onde ondas apaixonadas
   ( uma após outra)
Derramavam-se alegres
E em repetida sequência...

Saudade da água fresca da quartinha,
  (num sombreado canto da casa colocada)
Saudade da varanda caiada de branco,
Saudade da rede puída pela maresia,
Balançando... balançando...
Ao sabor do forte vento...

Saudade de me aboletar numa delas
Só pra ouvir, bem de pertinho,
O barulho do quebrar das ondas
A bordar na areia rendas de labirinto
Com suas brancas espumas abundantes
Lá na bela enseada do mar indolente
De Jericoacoara...

Saudade de mergulhar no Timbó
  (riacho fresco de águas cristalinas)
Que a sussurrar cortava as terras ressequidas
Do sitio de meus avos maternos:
A bela cabocla Elvira, mulher do galego João Gomes
De vivos olhos azuis reluzentes.
Ah! O Timbó era um riacho tão lindo.
 Nele corria muita água fresca
 E, às suas margens,
 Bastante flor nascia...

Saudade de comer pitu,
  (um baita camarão de água doce)
Que (com peneira)
Lá acolá, no dito riacho,
Muitos se podiam pegar!

Saudade da mesa posta,
Repleta de saborosas iguarias
Que só de se olhar de soslaio,
Prestes nos dispúnhamos a consumar
O terrível pecado da gastrimargia:

Peixe assado na brasa,
Recheado de lagostas e queijo coalho;                  
Salada arretada: legumes, verduras,
Rapadura e até cocada;
Caju cristalizado ou em calda;
Banana seca e sapoti;
Buchada, frango à cabidela,
Bolo de carimã, pé de moleque
Ou grude de castanha de caju
Como lá se chama;
Macacheira cozida e tapioca besuntada   
De manteiga derretida;
  (Claro, depois de desengarrafada!)
Tudo ali
(bem pertinho a se ofertar)
Para num piscar de olhos
Ser degustado                 
Por um bando eufórico
De alegres esfomeados...  

Arre égua!
Só me falta agora sentir saudade
De engolir uma bilha cheinha
De cajuína fresquinha
Pra saciar-me a sede
  (do meu quase maluco desejo)
De voltar ligeiro pro Ceará dos meus sonhos,
  (ainda que seja no lombo dum jegue)
Porque é a terra onde está meu aconchego,
E que, neste exato momento
Do meu poético desvario,
Oferta-me:
O colo generoso como regaço,
Os braços abertos de pura alegria,
E os macios seios ensolarados da terra
Pra que eu possa (certamente um dia)
Lá repousar saciado por inteiro...


Montes Claros (MG), 16-03-2012
RELMendes

quinta-feira, 22 de março de 2012

Um Convite à Maria Luiza

(Alguns porquês... justificam o convite!) 


A rever caminhos palmilhados...
Defrontei-me com tua silhueta graciosa
A enfeitar a tessitura de minhas andanças...
Então...
Recordei-me de belos momentos...
Em que adentramos
Por caminhos desconhecidos...
À busca do mistério das coisas...

Para mim...
Tua amizade era invólucro,
Não chama que se apaga
Ao suspiro da intriga.
Pois, amparados um ao outro,
Conseguíamos nos desvencilhar de empecilhos...
Que tentavam se  interpor entre nós.

E nós...
Só tergiversávamos...
Acerca de nossas fragilidades...
Partilhamos sonhos de esperança...
Investíamos na possibilidade
De acertar o caminho a ser trilhado...
Para não postergar a solidão
Que insistia em nos circundar...
De quando do meu exílio...

Em jornal local,
Utilizávamos metáforas literárias...
Pra exteriorizar a amizade tecida...
(Na oferta do abraço consolador...)
Chegamos a enfeitar...
Com guirlandas de lealdade,
A travessia de nossas utopias...
Desafiamos a montanha...
Só pra contemplar a beleza da flor
Lá resguardada...

Ah! Cara poeta amiga...
Há beleza demais no quadro da amizade,
Que juntos pintamos...
Hoje, ele (o quadro da amizade)  
Está escondido...
Lá no cerne de nossas recordações...
E aguarda ansioso,
A conclusão do seu encantamento...

Montes Claros, 21-06-2010
RELMendes


segunda-feira, 19 de março de 2012

O viés palatável

(da belezura de meus versos...)




Talvez apenas o céu e as noites de minha infância
(Que me pareciam bordados de estrelas)
Sejam o viés palatável de meus singelos versos: 

- Noites polvilhadas de estrelas reluzentes...
- Pirilampos cintilantes a piscar insistentemente, 
- Senhoras idosas a gargalhar se balançando 
  Em claras cadeiras de vime  
  E a chacoalharem displicentes suas saias godês
  Pra tentar se refrescar com o curioso vento... 

 Mas o intenso calor só se amainava
Com o suave soprar da refrescante brisa
Deslocada lá da enseada
Chamada de baixa da égua, 
Mísero prostíbulo disseminado
Ao entorno do farol do Mucuripe...
Que, rapidamente, no boca a boca,
Tornou-se de todos conhecido.

Embora àquela época
Fosse apenas um ancião-menino,
Já ansioso desejava do farol singrar
Pra outras plagas ou quintais distantes
Onde pudesse matar
A arretada saudade das coisas
Que, por eu ainda ser criança, 
Não tinham até então acontecido.

Montes Claros (MG), 10-03-2012
RELMendes

quinta-feira, 15 de março de 2012

Lembranças que trincaram o tempo



-Houve um tempo...outrora,
Em que eu...ainda criança,
Camuflei de alegria...uma secreta saudade,
Que embora aprisionada...por anos,
Na cadeia que construí em meu peito,
Persistia...silenciosa e insistente,
A incomodar-me os dias...

-Então aloprado, como sempre fora...
Eu tentava disfarçar...com muita euforia,
A saudade dos cheiros...gostosos,
E dos ternos abraços de minha mãe,
Que, vez por outra...em sonhos,
Fascinantemente, envolviam-me...

-E para disfarçar essa saudade
Que, dela, em meu peito ardia...
Todas as noites...
Logo após o morno anoitecer
Lá na calçada da rua da cidade
Aonde com meus avôs vivia...
Eu brincava, brincava...muito,
Brincava com todos,
Brincava de tudo:
- De pega-pega,
- De esconde-esconde,
- De saltar amarelinha...
-E até de jogar à noite...cabeçolinha,
Como se brincando e brincando...
Fosse-me possível amainar
Tamanha cruel ausência...
  
-Ah! Esse lúdico momento...
(Embora permeado de muita saudade...
Escondida!)
Sempre se permitia perfumar...intensamente,
Dos mais diversos cheiros...
Porque os bogaris, jasmins, cajás e oitis,
Exalavam no ar, sem avareza alguma,
Fragrâncias muito cheirosas...
Que, naquela época...em Fortaleza,
Muito se gostava de sentir...

Montes Claros, 26-03-2012
RELMendes